terça-feira, 17 de maio de 2011

Coisas existem, que sobrevivem em nós.

Como os lugares onde passei a juventude. Que, degradados pelo correr dos anos, em minha memória permanecem como eram; com todos os detalhes que impressos ficaram em mim. Como o eco dos risos e das lágrimas, que ainda hoje persistem em meu coração; como se pudessem escapar à marcha do tempo, protegidos pelo ancoradouro seguro da saudade. Como se cada momento vivido se cristalizasse no universo, qual vívida imagem que a qualquer instante acessamos, pelos infinitos caminhos do nosso verdadeiro Eu. Pois a verdade é que em mim continuam as lembranças de cada momento em que fui tocado pelo sopro da Vida: cada beijo de amor, cada ilusão que acalentei, cada desengano que sofri. Hoje, percorro as ruas por onde andei; e já não encontro a paisagem daqueles tempos, nem os amigos que comigo estiveram. Nem os sonhos que dividimos, na inconsequência da mocidade. Entretanto, se os meus olhos precisam enxergar o novo quadro, é para o velho cenário que se volta a visão da minha alma; e os sons de ontem se sobrepõem aos ruídos do hoje. E certo estou de que o mesmo ocorre a cada um de vós. Pois nenhum ser humano existe que não traga consigo as lembranças do passado, embora os seus pés caminhem no presente e a sua esperança viva no futuro. Já não recordo o conforto do seio materno, nem a emoção dos primeiros passos, nem a alegria do primeiro sorriso; tão longe não alcança o barco das lembranças. E, entretanto, é o mesmo conforto que buscamos em cada seio; a mesma emoção que procuramos em cada novo passo, e a mesma alegria que desejamos ter em cada sorriso. É preciso que o primeiro beijo se repita em cada beijo; que a mesma ânsia una sempre os corpos entrelaçados e a mesma ternura se faça presente, cada vez que se encontrem as mãos. Ou o vosso amor se perderá nas brumas do tempo, como antes dele tantos outros sonhos já se foram. E viverá apenas nas vossas lembranças, como hoje acontece às emoções do passado. Então, chorareis todas as vossas lágrimas; que serão tão mais amargas, quanto mais doces forem as recordações da felicidade. E, embora às vezes vos pareça a morte em vida, a saudade vos ajudará a viver… Uma saudade que me vem no tempo. Na lembrança de dias passados, quando os sonhos ainda habitavam em mim. Quando um simples olhar me devolvia a alegria, o som de uma voz preenchia o meu mundo e a esperança me fazia seguir em frente. Uma saudade que me vem no vento; nas notas da canção que se extingue lentamente no ar, no perfume que persiste em minhas narinas, no som do sorriso que permanece em meus ouvidos. Que me assombra na calada da noite, quando dos corpos entrelaçados resta apenas o vazio dos lençóis; quando o calor da pele e da carne cedeu lugar ao tecido grosso do cobertor. Uma saudade que insiste em viver, quando até os sonhos se desfazem a cada dia. Que permanece latente, sob a minha indiferença defensiva, como a fera que espreita entre as barras da jaula que a prende. Que, enquanto finjo escrever, me sussurra as palavras que estão gravadas em mim, com letras de fogo e gelo, de espinhos e rosas, de esperanças e desilusões. Uma saudade que eterniza as lembranças; que traz uma dor tão mais sentida, quanto mais doces são as recordações que provoca. Que mantém abertos os meus olhos, enquanto as horas escorrem na noite insone. Que já faz parte de mim, que já está no meu ser. Que se dissolve na resignação; na certeza de que nada é para sempre e afortunado se pode julgar aquele que, ao menos por um minuto, conheceu a felicidade. Uma saudade estranha. De lugares que não vi, de emoções que não senti, de aromas que não conheci, de canções que não escrevi. De dias que não vivi e hoje sei que não mais viverei. Que traz, na frustração dos sonhos não realizados, o conforto de sempre haver buscado o melhor caminho. Porque é certo que o calor dos sorrisos nos faz esquecer o frio das lágrimas, até que venha o novo pranto. Uma saudade que se reflete no desânimo do meu coração. E em meus cabelos brancos, onde as pegadas do tempo são cada vez mais nítidas e me fazem lembrar que se aproxima o fim desta jornada. Que me traz um cansaço infinito, qual inconsistente bruma que às vezes me parece envolver o mundo, transformando o novo dia em mero trecho a ser percorrido. Uma saudade imprecisa, feita de sonhos mortos e novas esperanças. Que me ajuda a entender a Vida...

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